
Seu livro Caminhos para Santiago – Desvios pelas terras e pela história da Espanha é uma obra formidável no gênero narrativas de viagem. Poucas vezes alguém conseguiu penetrar tão fundo nas veredas de um sertão que não é o seu, de nascença.
Numa entrevista em Paraty, perguntei a Nooteboom por que se encantou com a Espanha. Ele saiu pela tangente. Refletiu: nós nos apaixonamos por um país assim como por uma mulher, sem saber bem por que esta, e não aquela. Depois, respondeu a contento. Disse que a Espanha o fascina por ter uma zona quase desabitada no centro, em contraste com sua superpovoada Holanda. Para ele, encontrar esse vazio foi encontrar a liberdade.
No último romance de Nooteboom, Paraíso perdido, duas garotas de São Paulo se aventuram pela Austrália. Uma delas se envolve com um aborígene e sente uma atração irresistível pelo deserto (o vazio) que há no meio do país.
Não vou abusar da paciência de ninguém com a hipótese de que essa garota possa ser o alter ego do autor. Nem forçar a barra ao comparar o vazio demográfico, que atrai Nooteboom e sua personagem, ao vazio de que falam os budistas, o almejado estado mental em que cessam as necessidades e pensamentos.
Porém não deixa de ser significativo que viajantes sensíveis consigam se mover em busca de espaços amplos e desabitados. Ali deve haver energias sutis que as agências de turismo ainda não conseguiram empacotar.
Quantos vazios nos restam neste mundo globalizado por Deus, e bonito por natureza? Muitos, segundo Nooteboom. Ele viaja, viaja, viaja, e se dá conta de que cada vez viajou menos, pois ao viajar detecta vazios insuspeitados, na contramão do turismo.
O turista comum vive na ânsia ou na ilusão de que é possível conhecer tudo, ou quase tudo. Não dá valor ao vazio, nem se importa com isso. Vai ver, lá estão as vozes que o cara não quer ouvir.