
Um conhecido meu, no Sul, tem uma filha adolescente, loira e muito bonita, que arrumou seu primeiro namorado firme. O pai só conhecia o rapaz de passagem, socialmente, como se diz. Mas uma noite chegou em casa e encontrou um silêncio fora do habitual, instável, suspeito, diferente daquele de quando se está sozinho. Percebeu que a filha estava trancada no quarto. Havia algo estranho no ar. Olhou para a mesa da sala e, estupefacto, deparou com um capacete.
Sim, um capacete. Elemento estranho à ordem da casa. Até aquele momento, claro. Pois o pai logo percebeu que ia ter de engolir aquele capacete. Claro que poderia, em vez disso, enfiá-lo na cabeça e invadir o quarto da filha, como faria um capitão da tropa de choque. Mas já não estamos no século XX.
Contemplar um imprevisto capacete de motoqueiro dentro da própria casa permite a um cristão supor que a juventude, oje como hontem, tem a cabeça oca. Mais realista, no entanto, é aceitar que a invasão bárbara já aconteceu. Ali está o elmo, sobre a mesa. E a porta do quarto, fechada, informa que a filhota prefere a fibra de um jovem guerreiro à sabedoria grisalha do papai.
Menos inquietante, mas também surpreendente, é o que um amigo de São Paulo me contou. Seu grande barato, nos últimos tempos, era contar histórias à neta de 3 anos. Mas a nora se mudou para Paris, levando a menina. O ritual das histórias parecia uma página virada na relação entre o avô e a neta.
Aí entrou o Skype para respaldar a tradição. Meu amigo me contou, empolgado, que fizera a neta dormir (em Paris) lendo para ela (em São Paulo) um livrinho de histórias e mostrando cada página pela câmera. Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Antes de dormir, a menina pediu para ver o cachorro do avô. O labrador marrom também entrou na história. Suponho que a saudade que essa menina possa vir a sentir do avô deva ser bem diferente daquilo que entendemos por saudade.
Esses dois episódios acabaram por me convencer de que estamos, de facto, no século XXI. Até duas semanas atrás, eu tinha dúvidas.