
Inumeráveis governantes, de Nabudonosor a Mussolini, sempre cederam à tentação de eternizar seu nome por meio de obras de grande impacto, inclusive cidades. Eles se comprazem em fazê-las brotar em locais ermos, inóspitos, inesperados. Camberra, na Austrália; a Chandigarth de Le Corbusier, na Índia; e a Brasília de Niemeyer são exemplos de cidades que nasceram em pranchetas de escritório.
Mas o Cazaquistão agora chega a desafiar os deuses. A nova Astana surge numa região cuja temperatura atinge extremos de 40ºC, no verão, e -40ºC, no inverno. Não sei como pode haver pessoas dispostas a suportar uma variação térmica de 80ºC. É como viver numa montanha-russa. Mesmo assim, prevê-se que Astana abrigará mais de 1 milhão de habitantes em 2012.
Nazarbáev desviou o curso do Rio Ishim para ter o seu Tâmisa. Construiu um suntuoso palácio presidencial, Ak Orda, que imita a Casa Branca. E plantou uma floresta para desviar os ventos gelados das estepes de sua ousada Astana, que na verdade é um risoto de prédios em diferentes estilos. Pirâmides espelhadas convivem com trombudos edifícios residenciais que, como na Rússia stalinista, têm aspecto de penitenciária.
Não sei quanto vai custar a esbórnia urbanística de Nazarbáev. Também não sei (ninguém sabe) quanto petróleo resta nas entranhas da Terra. Já soube, não lembro, quanto custou a construção de Brasília. Naquela época, o sorriso aberto de Juscelino Kubitschek avalizava qualquer extravagância, mesmo que se tratasse de uma nova capital nos cafundós do cerrado. Eu era guri.
Cresci um pouco. Fiquei sabendo que Brasília (hoje eu a chamaria de Propília, capital da propina) foi o estopim da nossa dívida externa. De alguma forma, ajudou a colocar a economia brasileira numa montanha-russa. Tivemos de nos habituar ao sobe-e-desce, como os cavaleiros das estepes suportam os extremos do clima.