
< Sair de onde saiu, chegar onde chegou: inteligente, isso ele é.
Mas também:
< Lula é burro. Nem sabe falar.
Juízos tão extremados se devem à paixão política, prima-irmã da miopia. Atrelar a inteligência à desenvoltura no uso da língua é tão pueril quanto supor que o destino é determinado por mérito pessoal.
Testes de Q.I. (quociente intelectual) já não têm a credibilidade que tinham no tempo das galochas. De lá para cá cunharam muitas definições de inteligência, algumas até engenhosas. Nenhuma chegou a emplacar. Definir a inteligência é quase tão difícil quanto definir Deus. São entidades que se revelam por seus efeitos. Algo sempre nos escapará.
Se eu precisasse definir a inteligência, talvez dissesse que é alguma coisa capaz de observar a si mesma. Mas logo apagaria com a tecla Del. E, mais realista, escreveria: inteligência é a capacidade de fazer o que precisa ser feito, na hora certa.
Porém, ao adotar esta pedra de toque, teria de tirar o chapéu para a planta que tenho sobre o balcão. É um calancói. Escapou do vaso com todos os ramos. Se o mudo de posição, ele se volta de novo na direção da janela. Mantém suas folhas no ângulo exato para captar a luz. Todas, menos duas, bem embaixo, que sustentam de leve cada ramo sobre o tampo do balcão, como pernas de bailarina.
Existem mil formas de inteligência. A das plantas, a dos políticos, a das bailarinas. Que as julguemos superiores ou inferiores é questão de foro íntimo. Ou de alinhamento externo.
Eu não diria que Lula é burro. Como não diria que FHC, seu antecessor, é todo aquele portento que apregoam. Sinto que seu brilho, indiscutível, vem menos da essência do que de uma espessa camada de verniz. Não é da estirpe, digamos, de Vaclav Havel.
Talvez nenhum país europeu tenha tido, no século XIX, um governante do mesmo nível de Dom Pedro II, que impressionou Nietzsche quando eles trocaram idéias num trem. No entanto, mesmo contando com um imperador iluminado, o Brasil ficou na rabeira na hora de abolir a escravidão.
A questão não é bem até onde vai a inteligência de certo governante, mas sim o quanto ela consegue se impor às circunstâncias. Temo que seja sempre bem menos do que gostaríamos.