
> ‘Tou com um poblema.
< ‘Peraí, um poblema ou um pobrema?
> Não é a mesma coisa?
< Não. Poblema é de matemática, ensinam na escola. Pobrema é em casa. O marido bebe, bate na gente...
Contaram-me isso como fato verídico, mas tem jeito de piada. Pouco importa. Nesse diálogo, nada inverossímil, alguém verá o retrato tragicômico de uma população iletrada. Pode ser. Mas não é tudo. Há também algo de genial nessa cena. Perspicácia e sutileza se juntam, na contramão da gramática, para expressar um fino discernimento.
A segunda moça a falar nos diz, a seu modo, que as questões abstratas tratadas no mundo culto (poblemas) nada têm a ver com nossos dramas cotidianos (pobremas). Exigem, portanto, palavras diferentes. Seria uma generalização grosseira colocar esses dois conceitos sob o mesmo guarda-chuva, a palavra oficial, problema.
A intimidade com a vida real revela nuances e, claro, estimula a diversidade semântica. Povos berberes, por conta de sua imemorial convivência com o camelo, dão nomes distintos a cada pata do animal. É assim que funciona. Pouco importa se essa diversidade semântica, de início, se expresse por infrações à gramática. Deturpações e corruptelas com o tempo são assimiladas, se fizerem sentido.
< ‘Peraí, poblema ou pobrema?
Eis a questão. Se aprendêssemos a perceber essa diferença, talvez fôssemos mais felizes. Muitas das coisas que nos atormentam existem apenas no plano imaginário, como era, para os homens da Idade Média, a iminência do fim do mundo. Um mero poblema. Sem lastro no cotidiano.
A crucial diferença entre poblema e pobrema talvez venha a ser definida de maneira clara nas páginas do Houaiss ou do Aurélio. Isso num dia distante do futuro, quando o vocábulo-raiz, problema, cair em desuso. Só será lembrado em afetados textos jurídicos e, outrossim, na bula da pomada Minâncora.
Pode acontecer, por que não? Menos provável, no entanto, será que os burocratas da língua desistam dessa idéia de uniformizar o português falado por gente de diferentes climas e fusos horários. Não seremos nós, tropicais açodados, a convencer os lusos a abrir mão do agá na palavra húmido. Reforma ortográfica boa, mesmo, é quando começa no bairro. Pena que os burocratas não prestem atenção no que as moças dizem. Esse é o pobrema.