
Imagine essa zoada dentro de um tubo pressurizado que desliza por cima das nuvens. Centenas de passageiros, afivelados em poltronas estreitas, diante de telas nas quais cintilam cartelas de bingos, piadas, jogos de salão, fóruns de discussão sobre dietas e lipoaspiração, ferramentas de busca ao parceiro ideal naquele mesmo vôo. Claro, muitos vão preferir sintonizar a novela que estão habituados a assistir junto ao cônjuge, no sofá de casa. Afinal, por que se arriscar a descobrir que talvez na poltrona da frente esteja a pessoa dos seus sonhos?
Mas isto não é pobrema. O pobrema é que deslocar-se levando de arrasto um enxoval de velhos hábitos conspira contra uma tradição milenar. O momento da viagem sempre foi um rito de passagem. É uma lacuna, um lapso, durante o qual o viajante desfaz os laços com o mundo habitual sem ter ainda estabelecido contato com o lugar de destino. Mergulha num estado psicológico especial ao lidar com o desamparo, a aprendizagem e o desafio, mesmo que esse desafio seja achar um jeito novo de enfrentar o tédio. Já a tela do monitor é um continuum. Ela nos leva aos lugares de sempre.
De um século para cá, os aviões têm evoluído de forma espantosa em conforto e tamanho. Mas suas janelas continuam diminutas como as escotilhas dos navios. A indústria aeroviária, que agora se empenha em atrelar nossos olhos aos monitores, não foi capaz (talvez por falta de patrocínio) de criar janelas panorâmicas que nos permitissem apreciar, no cenário externo, recortes litorâneos, selvas, cordilheiras, cidades, nuvens, horizontes, crepúsculos.
Pensar num avião de vidro pode parecer um delírio, hoje. Mas não menos delirante teria sido, no tempo de Santos Dumont e dos irmãos Wright, a idéia de um dia se ter TV e Internet a bordo. Não é impossível que nossos tetranetos tenham o privilégio de viajar num avião transparente. Vão reencontrar no céu as mesmas estrelas vistas por nossos tetravós no convés dos navios. Quem sabe, é isso que nos faz falta. O verdadeiro pogréssio.