
Não só Zidane. Houve a convulsão no hotel, as suspeitas de trambique, tudo aquilo. E me lembro de um detalhe: na copa da França, pela primeira vez, o número de fotógrafos superou o de jogadores.
Da tribuna de imprensa, eu me espantava ao enxergar, lá embaixo, o tropel dos fotógrafos em busca das melhores posições à beira do campo. Um jogo de rúgbi. Às vezes, mais disputado do que a partida que eles iriam fotografar horas depois. E todos eles com um peso de não sei quantos quilos nas costas.
Apesar das hordas de fotógrafos em torno do campo, o que eu via depois, nas bancas, eram fotos muito semelhantes entre si. Previsíveis. Nada autorais. Pareciam feitas pelo mesmo fotógrafo. Mas claro. No campo, eles mal tinham espaço para se coçar. Trabalhavam sob o bafo do sujeito ao lado. Quase podiam espiar pela objetiva alheia. Que graça pode ter isso?
Ponha dez pintores, de Giotto a Miró, para trabalharem juntos no mesmo estúdio. Cavaletes encavalados, modelos entrelaçadas. Imagine o resultado.
< Que ótimo, a história da arte seria o samba do crioulo doido.
> Não creio. Acho que seria o samba de uma nota só.
Diante da mesmice de imagens, eu imaginava a besteira subseqüente, que relato sem pejo. Suponhamos que a Fifa, na copa, credenciasse não quatrocentos fotógrafos, nem quarenta. Apenas quatro. Escolhidos por sorteio. Melhor ainda, por concurso, por clicagens. Quatro. Mas cada um desses quatro teria liberdade para se locomover à vontade ao longo de cada uma das linhas externas do campo. Iam produzir obras-primas.
Imagine a voz de Fiori Gigliotti a ecoar no velho Pacaembu:
< Na linha de fundo do lado da concha acústica, temos hoje Sebastião Salgado! E no lado oposto, o dos portões monumentais, Henri Cartier-Bresson! Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira!
Não fossem tantos os fotógrafos, talvez tivéssemos mais fotos que valeria a pena guardar para sempre. Chega de saudade. Vou é jogar no lixo aquelas revistas. Cansei de ver tanta foto de Zidane a levantar a taça. Bah, tudo igual. Será que aquele sujeito lá em cima foi o único que registrou a convulsão do Ronaldaço? Dizem que foi ali que se decidiu aquela copa.