> Eu não tenho medo de morrer, eu tenho medo é de avião.Esta frase, atribuída a Picasso, pode não ser exatamente um chiste, uma boutade. Despedir-se deste mundo dentro de um tubo pressurizado, com a sensação de despencar no vazio, o quadril imobilizado pelo cinto de segurança, em meio a uma gritaria de pessoas desconhecidas, já é quase como trazer o inferno para o lado de cá, mesmo que não exista o lado de lá. Talvez fosse esse filme (Guernica II) que passava na cabeça de Picasso. O mesmo que passa na cabeça de muita gente.
Quando a fatalidade acontece, é só uma confirmação. Temos dentro de nós, fechado a sete chaves, um repulsivo fascínio por saber como é que os outros viveram seus últimos momentos. Em avião, nem se fala. Os barões da comunicação sabem disso. E seus pastores, os repórteres, se revezam dia e noite na tarefa de extrair até a última gota de sangue de uma tragédia, transformando-a em informação urgente.
Tivemos uma semana atordoante. A mídia ficou o tempo todo em cima desse acidente da Air France. A meu ver, passou da conta. Entrevistaram militares, engenheiros, pilotos, meteorologistas, especialistas em aviação, um monte de gente loquaz ou lacônica que, no conjunto, pouco acrescentou ao que nós, como leigos, já sabemos acerca de acidentes aéreos.
Minhas dúvidas continuam. Por que não constroem caixas-pretas flutuantes? Por que não arranjam um jeito de fazer com que os dados nelas contidos sejam transmitidos por satélite, automaticamente, em caso de impacto? Custa-me acreditar que seja assim tão difícil resolver isso.
Não vi nenhum jornalista fazer tais perguntas aos especialistas durante a cobertura do acidente com o voo 447. Mas vi repórteres correndo atrás de pessoas que perderam parentes, e deviam ser deixadas em paz. Vi matérias bem feitas na TV, mas também quilos de abobrinhas, como quando espicham uma novela até encher as medidas.
Vai chegar o dia em que a mídia, depois de uma tragédia, em vez de nos entulhar de notícias, aprenderá a fazer um minuto de silêncio como nos estádios e nas cerimônias públicas. Mas isso ainda demora. Primeiro precisamos perder o medo de avião. Nesse ponto, pelo menos, somos parecidos com Picasso.


10 comentários:
Todos os nossos semelhantes
Se alguém ainda tinha alguma dúvida de que, no Brasil, há várias classes de cidadãos, o acidente com o avião da Air France acaba de provar que essa é a mais dolorosa de nossas verdades. Uma verdade que muitos de nós se recusam a ver porque nos envergonha.
Escrevo logo depois de ler que o presidente da República em exercício, José Alencar, acaba de decretar luto de três dias pela morte de cerca de cinco dezenas de brasileiros naquele acidente aéreo.
Nos últimos dias, o sumiço do avião sobre o Atlântico, as especulações sobre o que teria acontecido, os dramas pessoais decorrentes da tragédia e, finalmente, a confirmação da morte daqueles cidadãos, tudo isso foi alçado a um patamar que terminou pondo a nação de luto.
Não tenho nada contra o país condoer-se pelas vítimas dessa tragédia, até porque me condôo da mesma forma. São seres humanos, meus semelhantes.
Oponho-me somente a não haver luto oficial ou comoção da mídia quando outras cinco dezenas de brasileiros morrem de forma tão ou mais trágica no Norte e no Nordeste por conta de chuvas e inundações, com o agravante de que a tragédia norte-nordestina é de proporções muito maiores. Famílias inteiras desabrigadas, montanhas de feridos, gente adoecendo gravemente. Foram milhares os atingidos.
Pergunto: por que uma tragédia é menor do que a outra? Se são tragédias no mínimo igualmente trágicas, porque são tratadas pelo Estado e pela mídia de forma tão diversa? O que torna mais importantes os cidadãos que estavam naquele vôo trágico?
A resposta a essas perguntas é dolorosa: cor da pele e classe social. Ponto.
Não há dúvida sobre isso. Há gente que será suficientemente calhorda para negar, mas é lógico que, por haver quase uma totalidade de negros, índios ou seus descendentes entre os mortos do Norte e do Nordeste - e por serem todos pobres -, não merecem tratamento igual ao da esmagadora maioria de brancos de classe média alta que morreram no desastre aéreo.
Não estou contando nenhuma novidade. Todos sabem que é assim no Brasil e em tantas outras partes do mundo, inclusive no mundo rico, e ninguém fala nada. Aceitamos isso assim inclusive porque se trata do nosso grupo social, no caso do acidente aéreo, com variações maiores ou menores de poder econômico.
Eu, pelo menos, não consigo aceitar esse tipo de coisa. Não consigo me conformar. Exijo de mim mesmo ficar indignado. Não posso perder essa capacidade. Não posso achar que seja civilizado, decente, humano tratar seres humanos de forma tão díspar. E muito menos que todos aceitem calados uma barbaridade civilizatória como essa.
Escrito por Eduardo Guimarães
....1 minuto de silêncio.....
Belo texto Renato e a contribuição do Eduardo Guimarães é eloquente e verdadeira, o resto é silêncio.
Renato, você disse tudo o que muita gente pensa e sente, seja a respeito do medo de avião, seja acerca da parafernália que a mídia faz quando acontacem tragédias.
Parabéns.
Daisy
Renato, mais um texto brilhante!Aproveito, também, para cumprimentar o Eduardo Guimarães pela exatidão das palavras. Vivo no Nordeste e entendo perfeitamente a que ele se refere. Grande abraço aos dois.
Olá Renato.
Mais uma vez, você demonstra ser o "philo" "sophos" que todos admiramos.
Realmente, acho que o medo do avião supera o medo da morte ou a morte é vista viajando numa das poltronas do tal pássaro de metal.
Eu gostaria de me focar naquilo que escreveu o Anônimo em "Todos os nossos semelhantes" que começa pela premissa de que realmente existem várias classes sociais no Brasil. A reflexão do nosso anônimo é muito interessante e nos leva a pensar o quanto a desigualdade pode ser útil para ocorrer a igualdade, pois é na diferença que encontramos a igualdade. Vejam, realmente o nosso amigo tem toda razão quando mostra que o acidente aéreo comoveu todo um país, tal qual você afirma indiretamente no teu texto reflexivo,mas isso só mostra o quanto somos iguais, uma vez que nascemos do mesmo jeito e morremos sem distinção de credo, raça, etnia ou condição social...
Alí, desencarnaram pessoas muito bem resolvidas economicamente falando, mas também trabalhadores como os comissários e todo o restante da tripulação e até mesmo, alguns passageiros menos afortunados. Oras, acho que aí encontramos um pouco da "comuna" de Santo Agostinho ou do ser socrático e assim por diante.
A questão nordestina também é sofrível e mostra a irresponsabilidade dos governantes votados pelas mesmas pessoas que se tornam vítimas das enchentes,falta de edcuação adequada, falta de assistência a saúde decente, falta de emprego, etc...
Eu penso que a imprensa deveria repensar seu papel na sociedade brasileira e também entender que acima da corrida econômica está a preservação da vida humana onde podemos incluir os sentimentos em todos os sentidos, mas como tudo acontece no seu momento certo, penso que ainda teremos o momento da imprensa. Por enquanto e diante de tudo isso, acho que medo de avião é o menor dos nossos medos.
Parabéns Renato, pela fantática reflexão.
Imprensa sensacionalista há muito tempo é pleonasmo. O porque disto é claro: a nobre missão de informar com fidelidade e comentar com lucidez foi suplantada pela rentabilidade do negócio, seja diretamente no caixa do curto prazo, ou no investimento em interesses de médio prazo, onde a manipulação da informação possa ter mais retorno financeiro. Como questões de longo prazo só existem no oriente, desconsideramos aqui.
A solução é um patamar de educação e consciência da população do qual estamos muito distantes. Será que os orientais já estão cuidando disto?
Para quem não concorda que temos a imprensa que merecemos, resta o controle remoto e a uma imaginosa leitura das entrelinhas dos jornais e revistas.
abraço
Antonio
Quando ocorre um acidente aéreo a mídia fica ouriçada não só com o aumento das vendas de jornais e revistas e do Ibope da TV – há também a possibilidade de fritar mais um ministro, o que tem sido seu esporte predileto. Waldir Pires perdeu o cargo em razão de um acidente aéreo e Nelson Jobim poderá ter o mesmo destino. Lula, que também tem o maior respeito pelos fabricantes de factóides, apressou-se em dizer que o governo vai tentar resgatar todos os corpos. Parece uma missão impossível: nem os corpos dos nortistas e nordestinos mortos nas últimas enchentes poderão ser todos resgatados, embora eles não estejam em alto mar. Também não há muita cobrança quando o desastre é sofrido por pobres criaturas.
Renato:concordo com os comentários de Eduardo Guimarães com relação à abominável discriminação social. E mais:sinto,também, asco e revolta com a falta de escrúpulos, da mídia, sobretudo da TV, ao explorar determinadas tragédias.
É o delivery do horror e da desumanidade...
Abraços
Adélia Dias Baptista
Quando entro nesse blog, tenho verdadeiros momentos de delírio, ao perceber que ainda existe vida inteligente neste País. Fico até sem o que escrever. Debord já dissecou a Sociedade do Espetáculo, em livro essencial sobre o tema. Além disso, sempre me pareceu que a mídia, principalmente a televisiva, explora ao máximo fatos que dão audiência. Li em algum jornal que subiu razoavelmente o IBOPE da Band e da Record, com esse desastre. Somente faltou, até agora, tirarem fotos exclusivas dos corpos encontrados. Mas, não duvido nada da agressividade jornalística. Concordo plenamente quando afirmam que há um tratamento injusto a mortos em enchentes, desabamentos e incêndios. Mas, o próprio contexto social foi desenvolvido dessa forma. Quem substituirá a curto prazo um determinado maestro, ou um empresário, ou um grupo de políticos italianos solidários, ou um consultor de controle de armamentos, ou um professor da PUC do Rio, ou uma cantora brasileira promissora ou até mesmo o herdeiro da Coroa brasileira? Eu me solidarizo, como humanista, com as famílias dessas pessoas. Não posso esquecer porém a tragédia que ocorre com outros atingidos por catástrofes; até porque o aquecimento global causará outros transtornos naturais. No entanto, será que as pessoas não encaram certos fatos com racionalidade exagerada? Morrer na queda de um avião não seria evitável? Não bastaria simplesmente deixar de voar? Agora, viver sem perspectivas, morando à beira de rios, ou próximo de indústrias perigosas, ou em habitações precárias, não é uma situação encarada com normalidade por muita gente? E não ficamos tão conformados com isso, que consideramos os desastres com essas pessoas absolutamente normais? E nem nos preocupamos mais? Pensemos gente se não estamos ficando conformados com tudo. O conformismo na minha opinião é aliado da falta de ação.
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