
> Ainda tem quem jogue?
< Crianças, não. Mas os antigos compram.
Vi que a atendente não me incluía entre os antigos, fosse por cortesia ou erro de avaliação. Quem sabe até me incluísse, mas essa categoria teria para ela algum aspecto honroso que ainda me escapa. Na dúvida, abstive-me de comprar bolinhas de gude.
Essas esferas de vidro têm valor histórico para muitas gerações. Foi o inocente joguinho de rua que precedia a sinuca, na época em que era fácil encontrar um canteiro de terra em qualquer quarteirão. Na ditadura militar, quando o chão das cidades foi impermeabilizado pela febre da construção civil, as mesmas bolinhas de gude serviram para derrubar cavalos da polícia, no momento em que a repressão investia contra os estudantes.
Os cassetetes, então, ainda eram temidos. Hoje parecem elementos decorativos, como as espadas dos Dragões da Independência. Neste tempo de violência generalizada, comprar um fuzil automático deve ser tão simples, para uns e outros, quanto para mim teria sido comprar bolinhas de gude. Que lugar sobra para o velho cassetete no mundo globalizado? A própria polícia, com seu arsenal de recursos (gases, jatos d’água, balas de borracha etc.), não deve se dar mais ao trabalho artesanal de reprimir os ímpios à base de bordoadas nas nádegas.
Há muito não vejo na mídia a palavra cassetete, antes comum no noticiário. Para os redatores jovens, ela deve soar tão passadista quanto palmatória, o instrumento punitivo que um dia se usava nas escolas. Não que o cassetete, mesmo outrora, fosse capaz de resolver todos os problemas de ordem pública. Mas funcionava como símbolo da autoridade policial, do mesmo modo como as bolinhas de gude davam identidade ao menino impúbere.
Na vitrine dessa loja, um brinquedo reproduz o equipamento de um policial, com cassetete e tudo. Custo a crer que um garoto de hoje possa se interessar por aquilo. Mas, se está lá, é porque vende. Vai ver, quem compra também são os antigos. Temos de descobrir quem são eles.